Engajamento cidadão e tecnologia na luta contra o Aedes

Por: Maíra Brandão | 17/04/18 9:27 PM

Por Lenne Ferreira

No último ano o Brasil registrou uma redução significativa nos casos de dengue. Se 2016 foi marcado por quase 1,5 milhão de casos, 2017 registrou 251.711 casos de dengue no país. Mas a doença ainda está muito longe de ser erradicada e representa um problema que precisa ser enfrentado de forma sistêmica pelas gestões públicas. É o que mostra o último Levantamento Rápido de Índices de Infestação pelo Aedes aegypti (LIRAa), divulgados no final de 2017. Segundo o balanço, 357 municípios brasileiros estavam em situação de risco de surto de dengue, zika e chikungunya, transmitidas pelo mosquito, o Aedes Aegypti. Isso significa que mais de 9% das cidades que fizeram o levantamento tinham altos índices de larvas do mosquito. Mas como os governos podem encontrar formas de lidar com a epidemia? O WWF-Brasil se propôs a buscar essa resposta por meio de uma armadilha de baixo custo e um aplicativo para smartphones chamado AeTrapp – Monitoramento Cidadão de Focos de Mosquito Aedes.

Para entender o projeto vamos voltar até 2015, quando a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio do INCITI – Pesquisa e Inovação para as Cidades, em parceria com o Ministério da Cultura coordenou o Laboratório de Cidades Sensitivas, o LabCeus. O objetivo do programa, realizado em 10 municípios brasileiros, era promover a cidadania por meio de interações sociais e tecnológicas, ativando espaços de criatividade cidadã e produção colaborativa nos CEUs (Centros de Artes e Esportes Unificado). Uma dessas ativações foi realizada em Águas Lindas de Goiás, em Goiás, pelo biológo Oda Scatolini, que procurou criar um laboratório de fabricação digital inspirado na filosofia do “Faça você mesmo”. A partir de oficinas, realizadas com jovens da periferia, surgiu a ideia do aplicativo tecnológico de impacto social.

Ovitrampa montada com materiais simples. Foto: João de Oliveira

Mas como funciona o AeTrapp? Para que o aplicativo entre em funcionalidade é preciso, antes, criar uma ovitrampa – uma armadilha que simula um ambiente ideal para a deposição de ovos de mosquitos Aedes. A montagem é padronizada e o mais simples possível: uma garrafa pet transparente, tampinha da garrafa, papel aquarelável, uma caneta, clipes e uma moeda de um real. A meta é tornar o monitoramento acessível a qualquer local do país. O acompanhamento da população de Aedes se dá a partir das fotografias das amostras geradas na ovitrampas que, expostas ao aplicativo AeTrapp, instalado em um smartphone, vai fazer a leitura da quantidade de ovos do mosquito e registrar tudo num sistema online. A presença de ovos nas amostras comprova que há mosquitos adultos no ambiente e, quanto mais ovos detectados, maior o risco de infestação.

“Hoje, o monitoramento de mosquitos Aedes é realizado exclusivamente pelo poder público e só alcança cerca de 30% dos municípios brasileiros. O engajamento cidadão no monitoramento pode causar um impacto positivo tanto no alcance, chegando em municípios onde não há dados, quanto em escala, mais pontos de monitoramento e atualização de dados, pois os dados do AeTrapp são disponibilizados em tempo real para a população e o poder público. Além disso, quando a sociedade gera seus próprios dados, torna-se mais sensível ao problema e mais preparada para buscar soluções”, explica o coordenador de Ciência e Tecnologia do projeto, Oda Scatolini. A partir da localização de pontos de riscos de infecção a gestão poderá identificar as necessidades da população e direcionar melhor as ações e recursos de investimento.

A fase de estudo de campo do projeto foi realizada em 10 bairros de Rio Branco, no Acre, em parceria com a gestão municipal. Em novembro de 2017, durante o Campus de Pensadores Urbanos (Urban Thinkers Campus – UTC), realizado pelo INCITI com o tema “Águas: Caminhos para a Sustentabilidade”, Oda apresentou o projeto para os participantes do encontro e ainda ministrou uma oficina. Nela, mostrou como criar uma armadilha caseira para detecção de ovos do mosquito. Essa experiência deu início a uma negociação para trazer para o Recife a próxima fase do projeto piloto.

O vírus da Zika, que ocasionou o surto da microcefalia e de Guillain-Barré em Pernambuco, também motivou a conexão do projeto piloto com o Estado. “Recife é uma cidade que sensibilizou todo o Brasil devido às consequências do vírus Zika em 2015 e 2016. Tem uma equipe e métodos de controle de endemias que é exemplo para todo o país e que se prontificou a apoiar a experimentação dessa nova metodologia no município e tem uma população quatro vezes maior do que Rio Branco”, avalia Oda.

Oda Scatolini, idealizador do Aetrapp. Foto: João de Oliveira

Após a execução do piloto e com a comprovação da viabilidade do sistema AeTrapp, ele poderá ser disponibilizado para uso em qualquer cidade do Brasil e de outros países. “É muito gratificante ver um projeto que saiu do LabCeus voltar como case de sucesso que amadureceu e tem a perspectiva de chegar em Recife e ser disseminado nacionalmente. Estamos conversando com atores locais com o objetivo de promover maior engajamento nos processos”, explica Caio Scheidegger, coordenador de Articulação do INCITI.

Parcerias viabilizaram projeto – O caráter inovador e de impacto social do AeTrapp, que é coordenado pela WWF-Brasil, ajudou o projeto a ser selecionado pelo Laboratório Ibero-Americano de Inovação Cidadã – LabicBr, promovido pela Secretaria Geral da Iberoamérica e Ministério da Cultura no Rio de Janeiro em 2015. A partir daí, o projeto teve seu desenvolvimento iniciado com o apoio de uma equipe de profissionais de diversos países iberoamericanos e de pesquisadoras e técnicos da Fiocruz. No mesmo ano, recebeu o Prêmio Inovapps, do Ministério das Comunicações, para o desenvolvimento do aplicativo em dispositivos móveis. Mas foi vencendo o Desafio de Impacto Social Google Brasil 2016 e com o apoio da Fundação Oak, que a WWF-Brasil pôde investir mais na estruturação, aplicação e divulgação do projeto.

Atualmente, a coordenação é realizada em Brasília, pelo WWF-Brasil, mas há parceiros em outros locais, como a Fiocruz de Rondônia, realizando experimentos para a validação da armadilha; especialistas em São Paulo desenvolvendo o algoritmo para a contagem automatizada de ovos, aplicativos, banco de dados e website; o Instituto Paulo Freire, que desenvolveu o material de apoio pedagógico; a produtora Imágica que realizou todo o material audiovisual do Projeto; e o INCITI/UFPE, apoiando todas as ações de mobilização e formação para a realização do piloto em Recife. Ao longo da trajetória de desenvolvimento do aplicativo, tiveram também apoio da Fiocruz do Rio de Janeiro, Instituto Federal de São Paulo, Instituto Federal do Acre, Universidade Federal do Acre, Prefeitura Municipal de Rio Branco e a equipe do Laboratório Iberoamericano de Inovação Cidadã de 2015.

Saiba mais sobre o funcionamento e metodologia do projeto acessando: www.aetrapp.org.