A importância da relação entre os cidadãos e a paisagem urbana

Por: Maíra Brandão | 21/09/17 5:05 PM

Por Luiz Vieira
Publicado originalmente em Rede Gestão

Recife é uma cidade com paisagens diversas em que as águas predominam e refletem a sua rica história, bem como o respectivo impacto ambiental do crescimento urbano desordenado. A relação do cidadão com a paisagem urbana diversificada é fundamental para o fortalecimento da identidade com os lugares afetivos e o respectivo empoderamento dessas paisagens na imagem e memória da cidade. O rio Capibaribe sempre exerceu, notadamente até o final do século XIX, função estruturadora na morfologia desse território, quando a cidade se voltava para as águas pela navegação, pesca e paisagem. O início do século XX registra o declínio desta relação com o rio Capibaribe que passa a ser pano de fundo, ou fundo de quintais de edificações que outrora se voltavam para desfrutá-lo como área de lazer ou para utilizá-lo como via de transporte.

A água, suporte da vida, é fundamental para o bem-estar psíquico e espiritual do ser humano. Na paisagem do Recife, está presente em diversas formas, tornando-se o grande potencial a ser revelado para a melhoria da saúde e qualidade de vida da população. No entanto, as pessoas têm percepções diferentes sobre os corpos d’águas e precisam ser sensibilizadas através do reconhecimento do valor implícito desse grande patrimônio urbano, ambiental e paisagístico. O rio Capibaribe flui em movimento constante para o mar, no entanto, num longo trecho estuarino os fluxos acompanham a variação da maré, renovando a água salobra e amenizando a poluição. Fluxo da maré, fluxo de energia, paisagem em mudança, ainda que imperceptível, animais, ventos, chuvas, sol, vegetação, concreto, seres humanos a navegar, pescar, viver do rio enquanto outros vivem ao longo das margens. Moradias nobres, em casas e prédios ao longo de ruas marginais e moradias insalubres, ribeirinhas ou em palafitas. Contrastes que fazem a cidade pulsar em um ambiente em constante conflito entre a descaracterização e a requalificação da paisagem urbana.

O Rio Capibaribe é o grande eixo conector do Recife, desde os primórdios da construção histórica da cidade, impondo-se na paisagem por sua beleza e imponência. No entanto, ainda não é reverenciado por grande parte dos cidadãos. O rio é venerado por uns, mas por outros, é visto apenas como obstáculo. Deixar de compreendê-lo como obstáculo é um dos grandes desafios da gestão pública, para que os espaços ribeirinhos sejam bem apropriados pela população. Para isso, é necessário que sejam identificados, mapeados e propostos usos e tratamentos paisagísticos que atendam aos desejos e anseios da população, fazendo desses espaços paisagens especiais, como refúgios de escape do agitado entorno urbano.

O projeto de Pesquisa e Desenvolvimento do Parque Capibaribe, fruto de um convênio inédito entre a Prefeitura da Cidade do Recife, através da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade, e a UFPE, por meio do INCITI – Pesquisa e Inovação Para as Cidades é uma mudança de paradigma na cidade que passou a ver o rio como um eixo integrador urbano de vários sistemas de âmbito ambiental, de mobilidade não motorizada, de ruas compartilhadas, de canais, de praças e parques, através de infiltrações na chamada “Zona Parque”, com aproximadamente 1 km de largura ao longo de todo o seu percurso, desde o bairro da Várzea até o centro do Recife. Também descartou o plano rodoviário da década de oitenta que previa duas vias expressas, em cada margem do rio, com quatro faixas para veículos, destruindo a vegetação ciliar e a paisagem do Capibaribe. No novo traçado, essas vias expressas foram eliminadas e substituídas por passeios, ciclovias e equipamento de lazer e de ativação econômica e social. Esse é um projeto de reestruturação da cidade a partir do rio e pode ser considerado uma ideia revolucionária. Devolver a cidade para as pessoas, possibilitar que se locomovam através de modais não motorizados, permitindo que usufruam das paisagens que se abrem para as águas, é o que se propõe neste projeto.

Para o futuro da paisagem de nossa cidade, precisamos ser otimistas e contribuir para o estabelecimento e fortalecimento de suas Unidades de Conservação, e em especial das Unidades de Conservações da Paisagem – UCP no Plano Diretor. Ainda que em constante transformação, é necessário que os seus marcos e ícones, naturais ou culturais, sejam incorporados a uma política de proteção visual assegurando a apropriação pelo olhar. Nesses casos a escala, campo visual e silhueta das fachadas, topografia e vegetação têm importância na caracterização da paisagem.

Para que o cidadão possa participar desse novo rumo proposto para a cidade, é preciso que conheça o projeto, que participe, que opine e que se aproprie da ideia de construção de paisagens e espaços excepcionas que farão do Recife em 2037, quando completa 500 anos, uma Cidade-Parque.