Grandes Projetos Urbanos no Recife – PE: Novo Recife e Parque Capibaribe

Por Sabrina Machry [1]

Nas últimas décadas são recorrentes propostas e ações voltadas a reestruturação e adequação do espaço para os fluxos e realização do capital, que são denominados “grandes projetos urbanos” e, no caso de envolver o setor privado, “operações urbanas”. Geralmente são associados a vocábulos como requalificação, reabilitação, revitalização, regeneração, reciclagem, e gentrificação urbana (MOURA, 2011; CASTRO, 2006).

Refletindo especialmente a respeito do âmbito socioeconômico, Beatriz Cuenya (2011) analisa três grandes projetos urbanos para Buenos Aires e Rosário, na Argentina, tendo em vista impactos nas centralidades urbanas, interesses dominantes no processo e os conflitos gerados a partir de sua implantação. A partir de suas considerações, é lançado um olhar aos projetos urbanos no contexto local.

A cidade do Recife vem experimentando as consequências deste tipo de investimento, em decorrência de grandes projetos urbanos implantados no município e em sua região metropolitana. Nas últimas três décadas o crescimento do Porto de Suape vem transformando a região, promovendo a instalação de indústrias e empresas de grande porte, o incremento populacional e o aquecimento do mercado imobiliário. São exemplos de grandes projetos da região metropolitana o bairro planejado Reserva do Paiva, no município de Cabo de Santo Agostinho, e a Cidade da Copa, em São Lourenço da Mata. Na área intraurbana estão em implementação – elaboração e tramitação legal -, os projetos Novo Recife e Parque Capibaribe, escolhidos como objeto de estudo deste trabalho.

Os projetos Novo Recife e Parque Capibaribe foram escolhidos tanto por suas similaridades quanto por suas diferenças; um é de natureza pública, um equipamento público estrutural (parque), enquanto o outro é um empreendimento privado, que apesar de apresentar outros usos é principalmente residencial de alto padrão, e ambos propõem a reabilitação de bairros ou frentes marítimas e fluviais, típico escopo dos grandes projetos urbanos (MOURA, 2011). Ao analisar os projetos, tem-se em consideração os impactos desses grandes projetos no funcionamento dos sistemas urbanos, especialmente no tocante a microeconomia e mobilidade urbana; os reflexos no espaço público recifense, a relação público-privada dos empreendimentos e os processos de segregação socioespacial e gentrificação desencadeados por eles; os arranjos institucionais envolvidos na realização dos projetos e os conflitos emergentes em cada um dos casos de estudo.

Mapa de Renda da População do Recife | Centros principais e secundários Grandes Projetos Urbanos - Parque Capibaribe e Novo Recife. Fonte: Censo IBGE, 2010; ICPS, 2011; PPC, 2015.

Mapa de Renda da População do Recife, Centros principais e secundários, Grandes Projetos Urbanos – Parque Capibaribe e Novo Recife.
Fonte: Censo IBGE, 2010; ICPS, 2011; PPC, 2015.

Na questão de impactos e transformações os dois projetos apresentam consequências ora semelhantes – como a tendência de incremento do valor do solo e gentrificação – ora muito díspares e, pode-se dizer, antagônicas para a cidade. Se considerados os impactos no funcionamento dos sistemas urbanos, especialmente no tocante à mobilidade urbana, enquanto o Projeto Novo Recife promove o incremento da frota (indiretamente) e circulação de veículos motorizados (diretamente), o Parque Capibaribe oferece uma infraestrutura alternativa de deslocamento, para os modais não motorizados a pé e em bicicleta.

Deve-se, contudo, estar atento às narrativas utilizadas para a promoção dos grandes projetos urbanos, pois o ideal/discurso associado às intervenções, na prática, pode não corresponder aos impactos desejados para o contexto local, ou transformar uma área sem considerar os valores culturais, sociais e históricos do lugar. Entende-se que toda intervenção gera algum tipo de mudança e consequência; resta aos atores conhecer os prós e contras das intervenções, as externalidades negativas e pesar o custo-benefício da intervenção. A partir da informação, os diferentes atores podem participar do processo de implementação dos grandes projetos urbanos, seja com apoio, revisão ou oposição.

Todo projeto de renovação urbana pressupõe a resolução de conflitos de interesses (CUENYA, 2011). O que varia de caso para caso – ou de projeto para projeto – é o grau de conflito entre interesses e atores urbanos gerado pela intervenção. Muitas vezes isso se relaciona com processo de concepção da ideia, no qual cada vez busca-se transparência, canais de informação, ferramentas de participação e transversalidade. A luta pelo direito à cidade vai além do poder da escolha por “a” ou “b”, do direito de dizer “sim” ou “não”; consiste na consideração de valores, interesses e anseios da população no tocante a uma intervenção urbana.

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[1] Sabrina Machry é arquiteta e urbanista, máster em Planejamento Urbano e Territorial (MDUT/UPC) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano (MDU/UFPE).